23.6.14

(Escrito por um irmão nosso...) 

Por algum motivo, provavelmente explicado pelo sionismo latente na teologia cristã popular de hoje (entenda-se Dispensacionalismo), há uma verdadeira atração por tudo que aparece sob a famosa Estrela de Davi, como se a mesma fosse portadora de algum poder santificante e de autenticação. Assim, se o AT fala de uma Arca da Aliança, os neoevangélicos estão dispostos a se prostrarem diante de sua réplica hoje, bem como estão dispostos a carregarem na carteira réplicas da espada de Gideão, ou do machado de Eliseu. Indo além do próprio Dispensacionalismo, tais “evangélicos” (sic) se sentem mais atraídos pela “sombra” do que pela “realidade”.

Outro dia, por exemplo, observando o diálogo entre dois jovens pregadores pentecostais, notei o grande fascínio que nutriam por expressões hebraicas “cheias de poder” (palavras deles).“Shamah”“Tsidikenu”“Jeova Nissi”, dentre tantas outras. Que há de errado com tais palavras e expressões? Absolutamente nada. A grande questão é que “Jeová Nissi” e “Deus é a minha bandeira” significam a mesma coisa, e não há nada de poderoso em ficar repetindo a mesma ideia em hebraico; a menos, claro, que a pessoa tenha em mente algum tipo de “mantra” - mas aí, já não estamos mais nos domínios da fé cristã. Contudo, pregadores sabem que gritar e repetir tais expressões inúmeras vezes de seus púlpitos, certamente lhes renderá uma pregação “poderosa”, aos olhos de seus ouvintes...

Por uma quase total ignorância da teologia neotestamentária eles alimentam a fantasia de que Deus se comoverá com palavras e símbolos judaicos! Inadvertidamente, acreditam que Deus se alegrará vendo Sua Igreja ignorando o Juízo que Cristo trouxe sobre a Casa de Israel, e com isso, rejeitam os tesouro da Nova Aliança em troca das migalhas da Antiga:

“Disse-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta como pedra angular; pelo Senhor foi feito isso, e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto eu vos digo que vos será tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que dê os seus frutos” (S. Mateus 21. 42,43).

Se Cristo está certo sobre a Igreja ter recebido as chaves do Reino de Deus, qual o sentido de querer aquilo que, segundo Jesus, foi aperfeiçoado pela fé cristã? Será que não ouviríamos hoje a mesma acusação que S. Paulo fez os cristãos da Galácia? “Ó insensatos gálatas! quem vos fascinou a vós, ante cujos olhos foi representado Jesus Cristo como crucificado? Só isto quero saber de vós: Foi por obras da lei que recebestes o Espírito, ou pelo ouvir com fé? Sois vós tão insensatos? tendo começado pelo Espírito, é pela carne que agora acabareis?” (Galatás 3. 1-3).

Não é de se estranhar, portanto, que a judaização da religião neoevangélica seja capaz de assumir contornos ainda mais assustadores, chegando a ponto de, literalmente, substituir a Fé Cristã por uma versão helenizada da Fé Judaica. Tenho um amigo assembleiano que quase me fez ter um infarto quando disse que estava congregando em uma sinagoga, onde estava aprendendo o quanto os cristãos tinham se afastado da verdadeira religião de Jesus. Já estava prestes a se converter em um gentio-messianico-judaizante! Como ele não nasceu judeu, evidentemente não poderia se tornar judeu messiânico, bolas! Por mais que o tenham iludido na tal sinagoga, o máximo que ele poderia vir a ser era um caranguejo estiloso!

Porque, segundo o que nos é dito no Primeiro Concílio de Igreja, registrado em Atos 15, os gentios não precisam se submeter a cultura judaica para seguirem a Cristo. Um gentio que faz isso está andando pra trás, feito caranguejo, e isso faz dele “insensato”, ou tolo, nas palavras de S. Paulo.Porque pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição; e destas coisas fareis bem de vos guardar. Bem vos vá.” (Atos 15. 28,29).

Mas a loucura não tem limites, é com um poço sem fim - depois que se cai nele o Inferno é o limite. Quem assistiu ao filme “Viagem ao Centro da Terra” - adaptação meia-boca do livro homônimo de Júlio Verne – deve se lembrar da cena onde os três personagens “descobrem” o caminho para o centro da Terra. Aqueles três tiveram a sorte encontrar um bom lugar de pouso no fim do buraco, mas o caranguejo normalmente termina na frigideira quando sai de seu habitar natural.

Nesse poço cavado pelos judaizantes tem uma loucura atrás da outra. Mas, vamos deixar as tolices dos neoevangélicos de lado, e aproveitar para dar olhar mais em baixo. Está virando 'modinha' entre alguns o costume de não mais chamar Deus de “Deus”, e Jesus de “Jesus”, além de outras descobertas mirabolantes, daquelas que fariam o Discovery Channel produzir uma minissérie. Porém, ao invés da nova série se chamar “O Astronauta Antigo” o nome seria algo como Em Busca do Jesus Perdido, pois o Jesus que conhecemos hoje foi, senhoras e senhores, uma falsificação do Império Romano. Aliás, se você quer questionar alguma coisa no Cristianismo o caminho mais fácil é botar a culpa num tal de Constantino. Sua tese, só por isso, já ganhará um monte de seguidores, além de render bons dividendos (pergunte aos Adventistas do Sétimo Dia, às Testemunhas de Jeová ou a Dan Brown).

Jesus, meus caros, não tem poder para salvar. Apenas Yahusha salva, como descobriu certo grupo judaizante. Segundo ensinam, o falso nome “Jesus” se estabeleceu através das traduções bíblicas, feitas primeiramente pelos católicos romanos, no que foram seguidos pelos protestantes. Felizmente, hoje temos esses verdadeiros iluminados para nos ensinar a verdade.

Mas, o que falta entre os judaizantes é a tal da unidade. A única coisa que os une é a ideia de que, nós, cristãos, falsificamos o nome do Filho de Deus. E qual é o nome verdadeiro? Uma segunda resposta nos é dada por um grupo chamado “Testemunhas de Yeshôshua” (veja artigo completo sobre eles AQUI). Bem, já temos duas teorias judaizantes, e agora?

Bem, talvez quem salve seja, na verdade, Yeshua, como afirma um grupo intitulado de “Judeus da Unidade”. Segundo seu líder do grupo, o rabino Marcos Andrade Abraão, Roma criou um personagem que pegou emprestado a história do verdadeiro Mashiach”.

O que mais me impressiona é que tais grupos estão conseguindo convencer pessoas que já conhecem o Evangelho. Recebo noticias e questionamentos sobre esses casos de “conversões”, ou melhor, de apostasias. E isso me faz perguntar se a raiz não está justamente na mentalidademística-judaizante da qual falei já no inicio deste artigo. Porque, não é verdade que tudo isso tem sua origem na mentalidade de que o cristianismo é apenas uma expressão do judaísmo em sua essência?

Mas, tanto essas seitas quanto os neoevangélicos padecem da mesma ignorância teológica sobre o Novo Testamento. Os judaizantes dentro de nossas comunidades ignoram a teologia neotestamentária a respeito da Realidade ter aperfeiçoado aquilo que era “sombra”. Os que descem mais fundo na heresia, desconhecem a própria letra do Novo Testamento. Para essas seitas, o argumento principal e que foi batizado com um nome judeu, portanto, aqueles que traduziram seu nome criaram uma falsa religião. E esse argumento é muito sedutor para aspessoas que em sua igreja vivem cercadas por palavras de ordens “judaicas” e símbolos “judaicos”; para elas esse argumento pode ser muito convincente! Tão convincente que muitos estão descendo mais fundo no fosso judaizante, e abandonando suas congregações cristãs.

Alguém pode negar que “Jesus” não é o nome hebraico do Cristo? Evidentemente não! Todos os cristãos sabem disso – se aprende na EBD. Mas, é pecado traduzir o nome de Cristo para outro idioma? Se for pecado, então os apóstolos – que eram todos judeus! - foram os primeiros a cometerem tal sacrilégio, pois nós herdamos deles tal costume. Porque o nome do Salvador é citado pelos Apóstolos mais de 900 vezes no Novo Testamento, e em todos esses casos ele traduzem o nome de Jesus para o idioma grego (IESOUS CRISTOS ) no qual estavam escrevendo.

Será que a falsa religião foi inaugurada já nos dias da Igreja Primitiva? Como podemos sustentar a tese de que a tradução do nome do Filho de Deus é uma abominação, coisa da falsa religião, se a própria Bíblia usa seu nome traduzido para a língua grega? Que apostasia é essa que os apóstolos, homens inspirados por Deus, preferiram seu nome em Grego a suas variantes Yeshôshua ou Yeshua?

Um fato aceito pela maioria esmagadora dos estudiosos do Novo Testamento é que este foi escrito em Grego, com a possível exceção de S. Mateus. Assim, ainda que eu goste muito da Peshita (versão aramaica muito antiga), o fato é que os Apóstolos escreveram a maior parte de seus livros para leitores e ouvintes gentios, que, obviamente, falavam grego. Naqueles dias não havia a Bíblia como a temos hoje. As cartas eram enviadas aos lideres das Igrejas locais, e durante a liturgia eram lidas diante de todos. E uma vez que sabemos que S. Paulo foi enviado como apóstolos dos gentios, parece óbvio supor que lhes falasse em sua própria língua: “Mas é a vós, gentios, que falo; e, porquanto sou apóstolo dos gentios...” (Romanos 11.13)“Os quais pela minha vida expuseram as suas cabeças; o que não só eu lhes agradeço, mas também todas as igrejas dos gentios” (Romanos 16.4)“A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar aos gentios as riquezas inescrutáveis de Cristo” (Efésios 3.8).

E, em todos os livros do Novo Testamento, em nenhuma vez encontramos os Apóstolos usando o nome Hebraico ou Aramaico de Jesus. Mas as fábulas judaizantes exercem tanto fascínio sobre os neoevangélicos de nossa geração que essas ideias estão se tornando cada dia mais populares. Nem todos chegaram ainda ao extremo de voltar ao judaísmo, mas muitos o estão fazendo. Nem todos estão se declarando “judeus cristãos”, mas se apegam com toda fé em elementos do judaísmo. Ironia das ironias, os judaizantes foram o grupo herético que mais deram trabalho ao apóstolo S. Paulo, e, ao que parece, eles estão de volta, e com toda força.

Fonte: OLHAR REFORMADO

24.11.13

Crescimento das Igrejas: Três Armadilhas


Ricardo Barbosa de Sousa 


Para mim não é fácil escrever um artigo sobre os perigos do crescimento das igrejas. Primeiro, porque nunca fui pastor de uma igreja numerosa. Não sei o que isso significa. Segundo, porque a realidade que envolve o crescimento de uma igreja é sempre muito complexa. Espera-se que uma igreja saudável – que ensina a Palavra de Deus, evangeliza e faz discípulos de Cristo ¬– cresça numericamente.

Porém, a saúde e a fidelidade de uma igreja podem levá-la a crescer e ser relevante, bem como a sofrer e ser marginalizada. No entanto, como o crescimento e a visibilidade das igrejas despertam grande interesse e o status decorrente é muito sedutor – o que não acontece quando o que está em jogo é o sofrimento, a marginalidade e o martírio –, gostaria de refletir sobre os riscos, ou quem sabe, sobre os ídolos, que o crescimento numérico das igrejas pode apresentar.

A preocupação com o crescimento da igreja é legítima e necessária. Sempre foi. O desafio dessa expansão envolve afirmar a prioridade da missão, a centralidade do evangelho, a necessidade de falar para os de fora, bem como o esforço para ser relevante no contexto social e cultural, no estabelecimento de alvos objetivos, na importância de estratégias e no uso correto das ferramentas sociais e tecnológicas.

Embora esta preocupação com o crescimento seja percebida em toda a história cristã, as mudanças sociais das últimas décadas trouxeram novas realidades, que precisam ser analisadas criticamente. Há três décadas, a preocupação dos evangélicos era com a missão integral e a luta por transformação política e social. A preocupação hoje é com a igreja local, seu crescimento, e sua presença na sociedade. Antes o foco estava na esfera pública; agora, na esfera privada da vida comunitária. Antes a palavra de ordem era "revolução", hoje é "relevância".

A busca por uma igreja relevante abre portas para um novo mundo, trazendo novos desafios e possibilidades. Por outro lado, abre brechas para o risco de a igreja se comprometer, muitas vezes sem perceber, com o espírito desta era. Modernizar e inovar não são um problema em si. Porém, é preciso olhar criticamente para a forma como se faz a busca por relevância e de que maneira se lança mão dos recursos modernos de crescimento. É necessário discernir os riscos que tais ações representam para o futuro do cristianismo.

A expressão "crescimento" pode ser compreendida em termos quantitativos (número de membros, orçamento, projetos) e qualitativo (maturidade, caráter, profundidade). Ambos são importantes, e um não exclui, necessariamente, o outro. No entanto, o crescimento quantitativo nem sempre promove um crescimento qualitativo, mas sempre desperta um fascínio em função da visibilidade e do prestígio que uma grande igreja proporciona para seus líderes e membros. É aqui que enfrentamos um grave risco: o de se construir a casa (igreja) sobre a areia e não sobre a rocha, segundo a parábola de Jesus.

CARACTERÍSTICAS DAS IGREJAS QUE CRESCEM

As igrejas que mais crescem possuem, pelo menos, três características comuns: uso intenso de modernas ferramentas tecnológicas, forte liderança pessoal e uma poderosa marca institucional. É claro que existem outras características, mas quero me deter nestas três e refletir sobre os riscos que elas representam para o futuro da igreja.

A revolução tecnológica da segunda metade do século 20 e deste início de século 21 mudou o cenário religioso. A busca pela excelência funcional e por uma comunicação eficiente ocupa o topo das prioridades de muitas igrejas. Possuímos tecnologia para um bom planejamento estratégico, música de excelente qualidade, projetos de crescimento eficientes.

O problema é que a tecnologia tem o poder de substituir aquilo que Deus faz por aquilo que é feito pelo homem. Vivemos o risco de um perigo semelhante ao que Paulo percebeu na igreja de Éfeso, cujos crentes, segundo o apóstolo, tinham aparência de piedade e no entanto lhe negavam o poder. Ter uma boa música, não nos torna, necessariamente, adoradores. Um bom planejamento estratégico não tem o poder de transformar mentes e corações. Projetos eficientes não fazem de nós verdadeiros discípulos de Cristo.

Igreja bem estruturada não é sinônimo de comunhão. A crítica à Igreja de Laodicéia é de que ela era rica e abastada e não precisava de coisa alguma. Inclusive de Deus. A tecnologia vem se tornando um substituto para a fé. Mas essa eficiência não substitui o poder transformador do evangelho. Precisamos perguntar: é possível discernir o que Deus está fazendo? O primeiro risco que a igreja enfrenta hoje é o da negação de Deus. Não a negação de sua existência, mas do seu poder.

Uma segunda característica comum é a forte liderança pessoal. A liderança forte, bem como a tecnologia, em si, não constitui um problema. O risco está naquilo que nem sempre é percebido. Se a tecnologia traz o risco de uma igreja sem Deus, a liderança forte traz o risco de uma igreja sem netos ou bisnetos. Hoje, o que mais atrai os fiéis a uma igreja, além de sua funcionalidade, é o carisma de seu líder.

Ao ser perguntado pela igreja que frequenta, a resposta mais comum é "a igreja de fulano de tal". Essa liderança confere uma posição de destaque ao membro desta igreja. A pergunta é: igrejas assim sobreviverão à uma segunda ou terceira geração? Sobreviverão depois que seus grandes líderes saírem de cena? Sabemos que algumas megaigrejas na América do Norte entraram em rápido declínio na segunda geração de líderes.

O velho problema da igreja de Corinto se repete: uns são de Paulo, outros de Apolo, outros de Pedro e alguns chegam a dizer que são de Cristo. O personalismo intensifica o narcisismo, que muda o objeto da adoração. Tanto na política como na igreja, a figura forte de um líder compromete o futuro. Vive-se um apogeu glorioso seguido por um rápido vazio e declínio.

A terceira característica é a forte marca institucional, que a torna atraente. Aqui vejo dois perigos. O primeiro diz respeito à busca por relevância. Porém, o que precisa ser relevante, a igreja (instituição) ou o evangelho de Cristo? É possível ser relevante e, ao mesmo tempo, comprometido com a verdade? Sem o evangelho e sem a verdade, qualquer esforço para ser relevante se mostrará, cedo ou tarde, totalmente irrelevante. A imagem que Paulo usa é a do tesouro em vasos de barro.

Não é o evangelho de Cristo que desperta o interesse de muitos para a igreja hoje, mas a própria igreja com seus métodos, programas, música e tecnologia. Isso não é necessariamente ruim. Nem sempre as pessoas serão atraídas pelos motivos mais nobres. O problema é que o vaso vai se transformando não só na porta de entrada, mas num fim em si mesmo. Quanto mais atenção se dá ao vaso, menor valor terá o evangelho.

O outro perigo é a perda da consciência de ser povo de Deus, Corpo de Jesus Cristo. Algumas igrejas que crescem rapidamente atraem uma quantidade considerável de cristãos frustrados com suas igrejas de origem, que ali chegam como a última alternativa institucional de sua jornada cristã. Envolvem-se com paixão, adquirindo uma forte identidade com aquele grupo em particular. O problema é que não são mais capazes de se verem como parte do povo de Deus em uma determinada região ou cidade, mas apenas como povo de Deus de uma igreja particular. É a negação do "povo de Deus" e a afirmação perigosa de uma elite religiosa superior.

CUIDADOS NO CRESCIMENTO

O desafio do movimento moderno de crescimento de igrejas requer alguns cuidados. O primeiro é o de preservar Deus como Deus na igreja. A tecnologia pode nos ajudar em muitas coisas, mas não transforma o coração e a mente caída do ser humano. Só seremos relevantes enquanto permanecermos envolvidos pelo que é eterno. Podemos usar os recursos modernos, mas precisamos nos assegurar que o que virá pela frente serão vidas transformadas pelo poder do evangelho de Jesus Cristo e não consumidores de programas e entretenimento religiosos.

O segundo cuidado é reconhecer a virtude da humildade. O testemunho de João Batista era: convém que ele cresça e que eu diminua. Este deve ser o espírito de qualquer líder. Jesus advertiu seus discípulos em relação ao risco do poder quando disse que entre os grandes e poderosos deste mundo, o maior manda nos menores. No entanto, disse ele, entre vocês não será assim. Quando a admiração por um líder diminui a devoção a Cristo, é sinal de que o espírito desta era já nos capturou.

O terceiro cuidado é compreender que fomos batizados num corpo. Somos o povo de propriedade exclusiva de Deus. Adoramos a Deus em uma comunidade local – grande ou pequena –, mas o Deus que adoramos fez uma aliança com seu povo do qual somos parte. O precioso tesouro foi confiado a um vaso de barro. Seja este vaso grande e inovador, ou pequeno e discreto, o que importa é o tesouro confiado a ele, sempre. Se a relevância pertencer ao vaso, o tesouro será negado à humanidade. É o Corpo de Cristo, todo ele, que revela a glória do cabeça da Igreja.

Os riscos do crescimento são invisíveis, mas muito grandes. Construir uma casa sobre a areia sempre foi uma opção atraente e sedutora. Mas formar discípulos fiéis e obedientes de Jesus Cristo, ensiná-los a guardarem seus mandamentos e obedecê-los, integrá-los em uma comunidade de adoração e serviço sacrificial, sempre foi uma tarefa difícil, lenta e trabalhosa.

Porém, quando vierem as tempestades e os vendavais testando o valor da fé, esta igreja, edificada sobre a rocha, testemunhará a glória da verdade redentora de Jesus Cristo.



11.10.13

Para onde estamos OLHANDO?

As pessoas sofrem e esperam, desanimam e oram. No entanto, a verdade é que muitos de nós vivemos anos e anos, sedentos de relacionamentos significativos, sem consciência de nossa dor, de nosso potencial, de nosso vazio.

A realidade é que nos movemos em meio a pessoas assustadas, desnutridas, incapazes de reagir às dificuldades da vida e, influenciados pelo vazio, tornamo-nos fracos.

As atitudes e impulsos desmedidos, são nada mais nada menos, do que o acúmulo de informações erradas, de uma natureza pecaminosa, carnal - uma genética deformada que só Jesus, o Filho de Deus, o próprio Deus, pode mudar.

Somente quem descobriu  essa "mente de Cristo", "nova vida (Zoe)" em Cristo, em suas próprias profundezas, pode tornar-se um ou uma obstetra espiritual, contribuindo para o nascimento de indivíduos saudáveis.

Há uma pergunta deveras importante. O que as pessoas sentem quando entram em contacto com a tua própria vida?

Naturalmente reconhecemos que é não é fácil avivar preservar relacionamentos e, ao mesmo tempo participar de dramas e ainda ter que enfrentar os nossos. Porém, cada um de nós é desafiado conscientemente a tornar-se participante e contribuinte - não um mero observador.

Precisamos fazer parte desse movimento que é dinâmico, que dá novas respostas às necessidades das pessoas. Pessoas essas jogadas em nossas estradas modernas de Jericó. Pessoas despojadas de auto-estima e abatidas pelas crises e tragédias da vida. Igreja é isso.

26.1.13



MOURINHO 50 anos


José é de Setúbal, da "terra do carrapau", o meu distrito. Tem mais dois anos do que eu e se calhar já nos encontramos em alguns jogos da Associação de Futebol de Setúbal, nos tempos de iniciados, juvenis ou mesmo juniores.

Sempre achei que este distrito era rico em termos desportivos, não somente em jogadores mas treinadores também. Conheci alguns que enxergando muito de futebol nunca saíram do anonimato. O que tinha este José que tantos José,s dessa vida futebolística nunca tiveram?

Poderíamos responder que talento, boa aparência, estabilidade psicológica, saber ouvir, saber observar, foram itens que ajudaram este José a chegar ao topo. Pode até não ganhar a Copa do Rei e a Décima Champions para o Real, liga dos campeões, mas o respeito que conquistou pelo seu carisma e resultados, fazem que nós portugueses nos orgulhemos, além de que, serve a sua determinação e profissionalismo para dizer que afinal nós não somos tão burros assim, no que diz respeito ao futebol e outras maneiras de estar na vida atual.

O importante é estarmos no lugar certo. Gostar do que se faz. Se não nos sentimos realizados naquilo que fazemos, quem perde, além de nós, são todos aqueles que nos rodeiam.Trabalhadores frustados viram pais mal humorados, maridos ausentes, nações pobres. O segredo e truque da vida é termos a coragem de seguirmos a nossa direção sem atrapalhar os outros, ao contrário, aprender com eles. Assim chegará um dia em que teremos nosso próprio estilo e método. Seremos imitados, alguém pretenderá ser igual a nós, mesmo que não sejamos lá grande coisa. O José ensina-nos que é possível atingir o nosso sonho mesmo que esse sonho nada mais seja o de ser um treinador de futebol. A questão não é ser bem remunerado, mas chegar lá

Mourinho é por assim dizer o espelho de nossos sonhos. Ali vemos reflectido o que imaginamos ser ou o que poderíamos ser: polêmicos; egocêntricos; frontais; honestos; inteligentes; leais; firmes e determinados. Mou é mais qualidades do que defeitos, estes se intrometem e logo são abafados pela sua boa índole. O sentido profissional, rigor e ambição que incute a si mesmo, é repassado para seus jogadores, a verdade é que todos quando chamados a falar dele, apontam-lhe em primeiro lugar coisas boas.

Elogios e críticas fazem parte do cardápio de qualquer um. O que nos diferencia uns dos outros é o reconhecimento do valor de outras pessoas - o quanto somos gratos àqueles que nos ajudaram a conquistar e a realizar nossos sonhos. Os títulos são apenas o prémio do que somos e fazemos e ainda assim, isso pode não nos trazer nenhuma realização e satisfação. Para Mou tem que haver motivação ao mais alto nível, pois só assim consegue estimular seus atletas. Ele diz que lê a Bíblia, que vê filmes que apelam à coragem e conquista como forma de superar as dificuldades e obstáculos inerentes ao jogo, fora e dentro das quatro linhas.

Depois os media, inimigos invejosos, alguns, tradicionais, como Cruyff, Allegri, Menotti e Valdano (este afastado), entre outros que o criticam de forma ácida e venenosa e, toda aficcion catalã, inclusive a imprensa (jornal Sport e El mundo deportivo) e agora até a imprensa madrilena ( Marca e AS), fazem uma guerra psicológica impressionante.

É preciso ser forte e ter um poder de encaixe extraordinário. Além disso, o que se destaca em Mou é o seu carácter humano e responsabilidade social. Enquanto estiver rodeado de pessoas que lhe querem bem e mal, Mou sobreviverá às críticas e armadilhas do futebol, pois "a mentira tem perna curta" e a verdade é sempre um bom investimento a médio e longo prazo. Obrigado Mourinho por reduzires minhas frustrações e parabéns pelos os teus 50 anos.

17.1.13

A FRAGILIDADE DA AMIZADE

Aelred de Rievaulx parafraseou 1.Jo 4.16 - " Deus é amizade e todo aquele que permanece na amizade, permanece em Deus". Nossa sociedade utilitarista dificulta as amizades. Ela nos convida a nos tornarmos (no dizer de Ricardo Barbosa) " prostitutos relacionais", fazemos amigos afim de... Usamos a amizade como fonte relacional - evangelismo por amizade. O problema é o que dizer se o "amigo" não se converte.

Na verdade não fazemos uma amizade em troca de nada. O psiquiatra R. D. Laing expressou: " Estamos nos destruindo a nós mesmos de forma eficaz por meio de uma violência que se mascara de amor..., não admira que o homem moderno seja viciado em pessoas; e quanto mais viciado fica, menos satisfeito fica, e mais solitário fica". A conclusão mais importante desta patologia é que os relacionamentos humanos existem somente para servir-nos. Quando vem os conflitos, a decepção, a desconfiança, não reparamos nem tratamos, ao invés, descartamos nossos semelhantes, como fazemos com uma ventoinha ou maquina de barbear de fabrico chinês.

A amizade perdida, que deveríamos resgatar por que somos crentes, tem que se basear na aceitação e isso envolve dor e misericórdia, aquilo que Jesus reivindicou como base do amor “Misericórdia quero e não sacrifícios”. Aquilo que devemos buscar segundo o Senhor Jesus, como substâncias para a construção de relacionamentos perfeitos, são o perdão e aceitação. O nosso Senhor deu-nos um exemplo disso quando galgou de uma relação de obrigações e interesse para uma relação pura de amizade. “Já não vos chamo servos, mas amigos”. O Senhor não esperava fidelidade no jardim ou no pátio, a sua confiança não estava nos seus amigos, mas, no Pai. Por isso Jesus nunca se decepciona!

Uma das razões da vulnerabilidade e fragilidade de nossas amizades é que no contexto da igreja passamos pouco tempo juntos - já pouco nos encontramos na semana e quando nos encontramos, ficamos sem saber o que dizer, fazer e pensar - parecemos pequenos robôs, cronometrados, tecnológicos e superficiais - perdemos o sentido da beleza do outro...

"Uma das grandes perdas que temos sofrido com a alta tecnologia da sociedade pós-moderna e a obsessão pelo sucesso é a da percepção da beleza. Valorizamos cada vez mais a eficiência e cada vez menos a arte. Preferimos o fast food, e não mais saborear uma boa refeição. Substituímos o real e o natural pelo virtual e pelo plástico. Vivemos como um turista que leva nas viagens suas câmeras e filmadoras digitais para não perder tempo contemplando a beleza da arte ou da criação. A aparência nos impressiona mais do que a realidade. Dentro de nossas igrejas, o efeito da mentalidade tecnológica é sutil e devastador. Imaginamos que se temos uma boa liturgia, boa música e coreografia, teremos um bom louvor e uma boa adoração. Se temos um programa eficiente, teremos um bom e fiel ministério. Se temos um bom sistema de integração de visitantes, teremos uma boa comunhão. A tecnologia nos afasta do belo e o reduz a um programa que nos ilude e nos leva a pensar que a beleza está na eficiência do produto e não mais no olhar, no gesto de fé e coragem, na criatividade ou num simples sorriso".

Não admira que sejamos mais tarde ou mais cedo surpreendidos pela desilusão, pela percepção doentia que temos de outras pessoas - não restando mais nada a não ser que nos afastarmos. Perdemos a beleza da amizade sacrificial.

10.5.12


O mundo em que vivemos, não está de jeito nenhum, virado para a pessoa de Jesus Cristo. Outras pessoas e outros nomes têm ocupado a mídia e as mentes dos homens. O descaso e a indiferença tomou conta das sociedades que vivem cada vez mais divididas entre si, refugiando-se nas distrações e distorções da época. As lágrimas vertidas são na maioria de raiva e de ressentimentos, culpas que se tornam cada vez mais pesadas com as experiências e dificuldades do dia a dia." E peguntou: Onde o sepultaste? Eles lhe responderam: Senhor, vem e vê! Jesus chorou. Então, disseram os judeus: Vede quanto o amava."(Jo11:34-36)

Há cerca de dois mil anos, Jesus o Verbo Encarnado, derramou lágrimas... O pranto de Cristo fala-nos eloquentemente a respeito de seu carácter. Ele nos descortina as profundezas do seu coração. Ensina-nos verdades sobre o Salvador que não poderíamos comprender de nenhuma outra forma. Desse modo, as lágrimas de Jesus também conseguem tocar-nos no mais íntimo da alma, levando-nos ao arrependimento, à conversão e à paz.

A idéia de um Deus amoroso era estranha aos povos da Antiguidade. Nos versos da Ilíada, Homero disse que "os deuses ordenam que a sorte dos homens é sofrer, enquanto eles mesmos são livres de preocupações". Os gregos acreditavam que a principal característica dos deuses era a apatheia, ou seja, uma total indiferença para com os sentimentos dos mortais. Mesmo entre os judeus - que tinham preceitos religiosos mais elevados - Iahweh era visto como alguém distante, que se relacionava com os homens tão-somente por meio da lei. Ao apresentar o Senhor como um Pai que se envolvia com os dramas de seus filhos, Cristo escandalizou os escribas e os fariseus.

No livro Cartas do Diabo ao Seu Aprendiz, C.S. Lewis imagina como seria a correspondência entre um demônio experiente e seu sobrinho novato. Em meio a uma série de "conselhos" sobre a melhor forma de semear tentações, o velho diabo Screwtape deixa escapar uma dúvida. Como pode o Criador(a quem ele chama de "Inimigo") amar suas criaturas e sacrificar-se pelo seu bem? Ele considera isso o maior dos mistérios, algo que a mente infernal não é capaz de entender.

Jesus chorou porque se entristece como os homens se entristecem. Ele caminha com os sofredores, no entanto, as lágrimas de Jesus não são em tudo iguais às nossas. É que não encontramos nelas traço de fraqueza, limitação ou desespero. Como no cemitério de Betânia, Cristo sabe que tem as coisas sob controle, e que por fim triunfará plenamente. Às vezes choramos porque não podemos fazer mais nada, porque chegamos ao nosso limite. Tal não se dá com Jesus. Suas lágrimas não são sinal de impotência, mas de um amor que se apressa a socorrer os aflitos com incrível suficiência e poder.
"Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor; e fui para eles com quem alivia o jugo de sobre as suas queixadas, e me inclinei para dar-lhes de comer" (Os11;

4.11.11

Filhos do ferro e do pó

A história da Aldeia de Paio Pires começa a ser escrita provavelmente no Séc.XIII. Um lugar de quintas e jardins, de mato e belas amoreiras -  foi mais ou menos ali (dizem) onde foi construída mais tarde a Sociedade Filarmónica de 5º de Outubro que D. Payo Peres Correia, teria acampado antes de ir conquistar o castelo de Palmela nas mãos dos árabes. "Como era habitual naqueles tempos, a recompensa pelos serviços prestados à pátria ou ao rei concretizavam-se na doação de terras. Deste modo, os terrenos que ocupavam sensivelmente a área actual da freguesia foram parar às mãos daquele militar. A evolução linguística encarregou-se do resto fazendo com que o Peres de outrora chegasse a Pires nos nossos dias".

Na década de 70, a Aldeia, até então desconhecida (não constava no mapa), começa a receber os primeiros emigrantes oriundos do  Baixo-Alentejo e  Alto Alentejo, do norte e do Ribatejo,  sendo que, a razão desse êxodo, é a Siderurgia Nacional e a possibilidade de emprego que  oferecia a muitas famílias, que até então, só sabiam o que era o campo e o sofrer. A quietude e a singeleza das pessoas da aldeia é abalada - o ar puro vindo das matas e pomares, outrora referência curativa e terapeuta para doenças pulmonares, torna-se pesado, alaranjado, formando nuvens de pó que encobrem o sol, saindo do alto-forno com fúria pertinaz. As mulheres só estendem a roupa em certos dias... algumas delas grávidas, ou carregando no colo bebés que alguns deles vão morrer de overdoses, doenças e acidentes, fruto de uma juventude inconsequente. 

Tinha dez anos quando se deu o 25º de Abril, morava na velha rua São Sebastião Correia no lote 52, 2ºDto e foi naquele prédio que eu nasci, minha vizinha do R/C  ajudou no parto. Mais tarde esta rua, como todas as ruas, no 25º de Abril mudaram de nome, a minha para: Rua professor, doutor, Egas Moniz. Era uma rua que começava na estrada que ia para o Casal do Marco (conheci ainda como azinhaga) e acabava na fossa, literalmente. Aldeia de Paio Pires, começa então a gerar filhos e filhas e adopta outros, que irão desaparecer aos poucos no auge de sua juventude, mais ou menos quando se dá o aniquilamento da Siderurgia Nacional. A morte da SN e minha geração está relacionada, pelo menos, cronologicamente.

Depois do 25 de Abril, as drogas e certas ideias progressistas, entraram e minaram nossas consciências, os pais lutavam na S.N e as mães em casa, não havia conhecimento - todos éramos ignorantes. Tudo começou com uma brincadeira e acabou em tragédia. Não vale a pena apontar culpados, de certa forma somos todos - filhos, pais, colectividades, igrejas, autoridades, e escolas - somos todos responsáveis, deixámos morrer uma geração de dezenas de jovens, somos cúmplices e devemos às mães desses, que são tantas, uma palavra de perdão. Filhos que nunca conheceram os pais, esposas e mães que se frustraram, pais que choram até hoje seus filhos e irmãos. Da minha parte choro amigos da minha rua e de outras ruas e não consigo escrever mais...


Nota:  D. Paio Peres Correia (século XIII), notável fidalgo, chefe peninsular da Ordem de Santiago, foi o responsável pela conquista de Loulé aos mouros em 1249. Faleceu em 1275 e encontra-se sepultado na capela-mor da Igreja de Santa Maria de Tavira.

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